As oportunidades comerciais que o Brasil perde na América Latina

América Latina é um mercado que o Brasil perde ao abrir mão da liderança regional.

Fale com Michel Alaby

A América Latina se estende da fronteira do México com os Estados Unidos até o Ushuaia, na Argentina, a cidade mais ao extremo sul do planeta. A região tem uma população de quase 500 milhões de habitantes, somados os 422 milhões da América do Sul e 75 milhões da América Central, divididos nos 12 países da América do Sul e 20 da América Central, somadas a parte continental e insular.

Se excluirmos o Brasil, que tem mais de 40% dessa população com 211,75 milhões de habitantes, há um mercado de 285 a 290 milhões de consumidores potenciais, que apesar de terem uma diferença linguística com o Brasil, já que falam Espanhol e nós, brasileiros, o Português, têm grandes semelhanças conosco, por terem sido, em sua maioria, países de colonização ibérica e terem uma grande diversidade étnica e cultural, tendo recebido imigração de todas as partes do mundo.

 

Como o Brasil é o país mais industrializado da América Latina, posição em que é seguido por Argentina, Colômbia e México, e é visto com simpatia na maioria deles, seria de se esperar que não só tivéssemos uma relação comercial estreita e especial com todos eles, como também que o Brasil exercesse sua liderança natural na região, o que estimularia a ainda mais as trocas comerciais entre os países latino americanos.

 

Lamentavelmente, não é o que acontece. Podemos afirmar que o Brasil deliberadamente abriu mão de sua liderança natural na América Latina em questões políticas e de integração econômica, energética e comercial, permitindo que nosso peso político na região diminuísse. Mas para que recuperemos o terreno perdido, é preciso entender o que exatamente está em jogo.

 

Porque o Brasil perdeu influência na América Latina

 

O Brasil rompeu relações com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribe (CELAC) e pouco fez para impedir que a Argentina se retirasse das negociações do Mercosul. A insegurança jurídica criada por nossos vizinhos com esse ato unilateral e não previsto nos estatutos do Mercosul foi um duro golpe no já combalido bloco, que será ainda mais desmoralizado pela ativação da adesão Argentina ao Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura.

 

A Argentina já havia afirmado a entrada em 2017, mas só agora a efetiva, estreitando ainda mais seus laços com Pequim. O próximo passo seria a adesão de Buenos Aires à Iniciativa do Cinturão e Rota (One Belt, One Road), também chamada de Nova Rota da Seda, que colocaria nosso vizinho, um dos principais destinos de nossas exportações de manufaturas,  definitivamente sob uma esfera de influência comercial chinesa.

 

Essa aproximação da Argentina com a China, no mesmo momento em que o Brasil procura se aproximar dos Estados Unidos pode ser entendida como uma opção comercial, mas também de acomodação na geopolítica mundial, cálculo político interno e talvez afinidade ideológica, em um momento em que ambas as superpotências travam uma disputa pela liderança econômica, científica e política do mundo.

 

O cálculo geopolítico deve ser feito, e as decisões de cada país, respeitadas. Mas não podemos deixar de apontar que países têm interesses de curto, médio e longo prazo, e esses devem estar acima das preferências ideológicas de governos de turno.

 

Relações Brasil América Latina

 

É verdade que no passado muitas tentativas de integração comercial do Brasil com os países latino-americanos descambaram para discursos políticos influenciados por um certo antiamericanismo que pouco geraram de resultados práticos em matéria de comércio internacional. Mas se esse erro foi cometido no passado, não significa que ele deve ser repetido nos dias de hoje.

 

Privilegiar relações com Estados Unidos, China, Índia, Japão, países da Europa outros grandes players da economia mundial não obriga necessariamente que as relações com a América Latina devam ser colocadas em segundo plano. Muito pelo contrário, aliás. Ter boas relações comerciais com nossos vizinhos ajuda a manter a estabilidade econômica e consequente política na região, o que é do interesse do Brasil, como mostrou a recente crise humanitária na Venezuela.

 

Porque exportar para a América Latina

 

O volume das exportações brasileiras para a América Latina em 2019 foi de USD 41 bilhões, 18% do total exportado naquele ano, de aproximadamente USD 225 Bilhões. Mas, tão importante quanto o volume é a qualidade dessa exportação, que é de valor agregado mais alto. No ano anterior, 2018, 39% de todas as exportações brasileiras de bem manufaturados e semimanufaturados tiveram por destino nações latino-americanas e caribenhas.

 

Não é segredo para ninguém que a indústria brasileira há anos vêm perdendo competitividade quando comparada a das principais economias do mundo, na Ásia, Europa e América do Norte, o que acaba limitando muito a pauta exportadora do Brasil para essas regiões, que acaba restrita a comodities. Então, ao colocarmos em segundo plano um mercado que aceita tão bem os produtos brasileiros, arriscamos principalmente as nossas indústrias.

 

As oportunidades de negócios na América Latina

 

As oportunidades na América Latina irão muito além do mercado para os produtos brasileiros, commodities ou manufaturados, e a razão disso são as tendências que se apresentam para o mundo pós pandemia de coronavirus, no que se refere às cadeias de produção globalizadas, que deverão se tornar regionalizadas para que o mundo nunca mais dependa de um só pais produzindo um item essencial, como aconteceu com os respiradores no auge da crise.

 

Para entender como será esse mundo em que a regionalização continental da produção substituirá a globalização em muitas cadeias de valor, leia esse artigo. Mas tão importante quanto entender esse conceito, é saber também que ele só se concretizará, com todos os benefícios que pode trazer para as empresas brasileiras, se o Brasil se prontificar a assumir a liderança regional que seu tamanho e peso econômico impõem.

 

Como recuperar mercado na América Latina

 

Para recuperar o mercado na América Latina e aproveitar as oportunidades da regionalização da produção, já existe um instrumento pronto, a ALADI – Associação Latino Americana de Integração Constituída em 1980, pelo Tratado de Montevidéu e formada por 13 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Cuba, Equador, Colômbia, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Um outro ponto que ajudaria as empresas brasileiras a recuperar rapidamente sua participação no mercado latino-americano, especialmente para exportar bens manufaturados, de maior valor agregado é que já existe um sistema de financiamento pronto, o Convênio de Crédito Recíproco (CCR), instituído em 1982 e do qual o Brasil não faz mais parte desde 2019.

É possível fazer com que a ALADI e o CCR assim como o Mercosul, funcionem a favor do Brasil e de todos os seus países membros, com eficiência e transparência, pois ninguém defende uma concessão de financiamentos sem critério. Mas o foco deve ser o de estabelecer o diálogo, e buscar o crescimento do comércio e deixando de lado as questões ideológicas.



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