Internacionalização de empresas no mundo pós-coronavírus

Internacionalização será fundamental para empresas brasileiras no mundo pós-coronavírus

Fale com Michel Alaby

Uma das maiores dúvidas dos gestores das organizações é entender como será o mundo pós-coronavírus , e o que devem fazer para se adaptar a ele. Para cada país haverá desafios diferentes, mas há razões para crer que, para as empresas brasileiras, a internacionalização será fundamental, mesmo que a tendência que parece estar se concretizando seja a de um mundo menos globalizado.

Embora internacionalizar para ser mais competitivo em um contexto de antiglobalização pareça ser um contrassenso em si, esse é um dos paradoxos que a covid-19 parece criar para o mundo que existirá depois dela, e está diretamente relacionada à escassez de respiradores e à posição da China como a grande fábrica do mundo.

Uma parte da tragédia dessa pandemia está na natureza do microrganismo. Uma mutação de um vírus conhecido, que por razões que os cientistas estão ainda buscando, se tornou mais letal e muito mais contagiosa, contaminou um cidadão chinês, e se espalhou rapidamente pelos cinco continentes. A devastação causada é algo que o mundo não via desde a chamada gripe espanhola, há mais de 100 anos.

O que precisa ficar claro é que se espalhar faz parte da natureza das epidemias, como podem comprovar os registros históricos de todas as que foram estudadas, e que um vírus não reconhece etnias, nacionalidades ou fronteiras. Querer atribuir ao novo coronavirus um ‘passaporte’ é algo que só dificulta a desejável cooperação internacional para combatê-lo.

Porque faltam respiradores.

O que tornou a Covid-19 tão letal não foi a falta do conhecimento de como tratar os doentes, mas a escassez mundial de aparelhos respiradores e equipamentos de proteção individual como máscaras, toucas e aventais. Inclusive para os profissionais de saúde, que em meio ao caos se viram sem o mínimo de condições de trabalho. Muitos se infectaram e destes, vários morreram. Uma tragédia dentro de outra.

Mas esses equipamentos não eram escassos por serem caros. Justamente o contrário. Para os padrões de suas indústrias, eles eram tão baratos que 90% de sua produção mundial foi concentrada na China, que ao longo de décadas de um planejamento admirável, montou cadeias de produção em que não só as fábricas de cada equipamento, mas de seus componentes, estavam lá ou em países vizinhos.

A ‘tempestade perfeita’ que devastou o mundo aconteceu, também, porque o primeiro país que foi atingido foi justamente o que produzia esses equipamentos. E se tornou totalmente impossível produzir e entregar, nos cinco continentes, mercadorias cuja demanda simplesmente explodiu repentinamente.

EUA X China

O novo coronavirus, entretanto, não é o único causador das mudanças no que conhecemos como globalização. Aparentemente, a pandemia acelerou uma tendência que já se apresentava, de relações mais tensas entre Estados Unidos e China, devido à disposição do país asiático de disputar com os norte-americanos a posição de maior potência econômica, militar e científica do mundo.

Diante do desafio aberto do gigante asiático, expresso no programa Made in China 2025,  a Casa Branca tem usado sua influência para frear o avanço chinês, com ações que vão desde o acordo comercial EUA X China a estímulos para que marcas norte-americanas parem de produzir na China e fundos de investimento não invistam em companhias chinesas.

Qual será o resultado dessa disputa de gigantes, somada às fragilidades da atual cadeia de produção mundial, expostas pela pandemia, ninguém sabe. O que parece certo é que as empresas de todos os países, inclusive do Brasil, devem se preparar para um cenário completamente novo.

O mundo pós-Covid-19 não será aquele desejado pelos críticos da globalização

Antes da pandemia, a grande maioria das críticas à globalização, e ao livre-comércio entre os países, se baseava no argumento de que países em que os custos de produção são mais baixos atraem as fábricas de diversos tipos de manufaturas, e que por isso, “roubam os empregos” de operários de países onde os custos de produção são mais altos, por fatores diversos. E o padrão de vida desses operários, e de suas famílias, cai.

Esse fato foi explorado de todos os lados do espectro ideológico. Tanto ativistas políticos anticapitalistas, quanto empresários incomodados com a concorrência de produtos estrangeiros, já usaram o argumento dos empregos para criticar a globalização e pressionar seus governos por medidas protecionistas.

Mas, apesar de a tendência indicar um mundo com mais protecionismo do que havia antes da Covid-19, se engana quem acredita que os principais países do mundo irão fechar suas economias, limitando importações e substituindo-as por produtos nacionais. Essas foram experiências pela qual países como o Brasil e  Argentina e Índia já passaram, e não ajudou a criar indústrias competitivas e consumidores bem atendidos.

Internacionalização tornará as empresas brasileiras mais competitivas.

Se existe uma tendência mundial protecionista, por que internacionalizar as empresas brasileiras, adaptando seus processos produtivo, administrativo, fiscal e tributário, além de relações com clientes, fornecedores e prestadores de serviço a padrões internacionais, tornando-as aptas a importar, exportar e ter filiais, escritórios  parceiros no exterior?

A resposta poderia ser porque isso as tornará mais competitivas. E ser competitivo em um cenário extremamente recessivo, como o que as empresas brasileiras vão encontrar na retomada das atividades, pode ser decisivo para a sua continuidade. Mas como já vimos, mesmo quando o mundo sair da recessão, os fatores que listamos no início desse texto criarão novos cenários, que podem inclusive se manifestar simultaneamente.

Menos globalização e mais regionalização continental

A falta de respiradores escancarou a fragilidade das cadeias de valor concentradas na China. Mas experiências anteriores de nacionalização total da produção de manufaturados também não foram bem sucedidas, porque mesmo um país com uma indústria diversificada, como o Brasil, jamais conseguiu ser competitivo em todas elas, que só sobreviviam sendo protegidas da concorrência internacional.

Um cenário possível nessa situação será a criação de novas cadeias produtivas regionalizadas, com cada etapa delas instalada no país do continente que for mais competitivo para ela. Isso não significará que as economias do mundo, com exceção da norte-americana, terão um viés anti-China. É muito provável, inclusive, que investidores chineses sejam convidados a participar.

Mas o que ninguém vai querer passar novamente é pela situação de precisar desesperadamente de uma mercadoria, ter o dinheiro para comprá-la e não conseguir, porque somente um país do mundo é capaz de produzir e entregar. E o mundo inteiro está na fila.

Mercado externo mais competitivo.

Um dos cenários possíveis para as empresas brasileiras é que, na retomada elas encontrem um mercado interno tão recessivo que acreditem ser esse um bom momento para buscar clientes no mercado externo. É uma excelente estratégia, e que pode e deve ser mantida, pois empresas internacionalizadas tendem a ser mais estáveis no longo prazo, podendo contar com o exterior quando o mercado doméstico está em baixa.

Mas não só elas podem ter essa ideia, mas seus concorrentes de outros países. Para conseguir competir com eles, além de todos os processos internacionalizados, as empresas brasileiras deverão ter produtos adaptados aos gostos e preferências dos consumidores de cada país para o qual quiserem exportar.

Novos competidores no mercado brasileiro.

Mesmo que as empresas brasileiras não queiram, precisem ou possam buscar o mercado externo, a internacionalização pode ser muito necessária. Em um mundo mais protecionista, grandes empresas exportadoras, como por exemplo, as chinesas, podem olhar para o mercado brasileiro, e seus 200 milhões de habitantes, como uma maneira de compensar os consumidores que podem perder no mercado americano.

A internacionalização pode tornar as empresas brasileiras mais competitivas para defender a sua participação no mercado doméstico, tendo não somente um processo produtivo competitivo em termos de custo, como produtos com a mesma qualidade dos competidores estrangeiros, pois com mercado recessivo, ou não, o consumidor será ainda mais exigente em termos de qualidade dos produtos que compra.



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