ESG

ESG – porque o governo e as empresas brasileiras devem falar sobre sustentabilidade

Fale com Michel Alaby

Qual o real tamanho dos danos à reputação do Brasil, e consequente, das empresas e marcas brasileiras, especialmente do agronegócio, causadas pelas queimadas que ocorreram no último ano? 22% da soja e 17% carne bovina produzidas na região da Amazônia e do Cerrado causaram desmatamento, como disse a reportagem da Science?

A resposta a todas essas perguntas é “não sabemos ao certo”. Como disse com muita propriedade o General Mourão, vice-presidente da República e chefe do Conselho da Amazônia, “o governo perdeu o controle da narrativa.” E é justamente para recuperar esse controle que o Brasil deve adotar padrões ESG e o governo e as empresas brasileiras devem falar sobre sustentabilidade.

ESG: O que significa e porque você deve prestar atenção.

ESG significa Enviromental, Social and Governance, Ambiental, Social e Governança. É um critério que analisa qual o comportamento das empresas em relação a cuidados ambientais, sociais e de governança. Ou seja, o nível de preocupação que elas têm com o impacto de suas atividades no meio-ambiente e na vida das pessoas. E se fazem tudo isso com ética e transparência, dentro das normas legais.

Um estudo feito pelo Banco Itaú BBA com 58 gestores de investimento, 40 brasileiros e 18 de outros países, mostra que o tema meio-ambiente e sustentabilidade entrou no radar dos investidores. De acordo com a pesquisa, 50% dos fundos estrangeiros afirmaram que a sustentabilidade tem um peso muito importante em suas decisões de investimentos. Entre as gestoras nacionais, apenas 25% estão mais sensíveis ao tema. Mas ainda é um número alto.

Essa diferença, de acordo com o relatório do banco, se explica porque os fundos de investimento estrangeiros se anteciparam na adoção dos padrões ESG, pela maior oferta de ações relacionadas a produtos em outros países e a menor divulgação de informações relacionadas ao tema por um número significativo de empresas listadas no mercado brasileiro, quando comparadas a grupos internacionais.

O tema da sustentabilidade, que em um passado não tão distante só tinha peso significativo para consumidores mais engajados com essa causa e empresas que faziam desse o seu propósito de marca, não somente se tornou relevante para um número crescente de consumidores, como entrou na pauta de cada vez mais empresas e investidores, que na era das redes sociais, não podem se arriscar a serem acusados de insensíveis à questão.

Setores mais vulneráveis do ponto de vista do ESG.

O agronegócio brasileiro, apesar da esmagadora maioria das empresas do setor seguir padrões elevados na questão da sustentabilidade, é o que tem sido alvo das maiores críticas, tanto no Brasil como no exterior. A grande maioria dessas críticas é honesta, embora muitas pareçam ser fruto de falta de informação à respeito do que o agronegócio efetivamente faz pela preservação ambiental,  que pode gerar uma certa má vontade com o setor. E há uma minoria que tem o objetivo de garantir reservas de mercado contra produtos brasileiros mais competitivos.

O mesmo estudo do Banco Itaú BBA, apesar de não citar o agronegócio como fonte de preocupações ambientais, apontou outros setores importantes para a economia brasileira como potenciais fontes de preocupação dentro de uma avaliação que use o ESG como critério, que são os seguintes:

Papel e celulose

Siderurgia

Mineração

Em virtude dos incêndios na Amazônia, o Brasil se tornou alvo de uma torrente de críticas, que poderiam ter sido evitadas com uma estratégia de comunicação que mostrasse todos os esforços brasileiros para a preservação do meio ambiente, como já sugerimos aqui. E, independentemente do que é narrativa e do que é verdade, os gestores públicos e privados devem entender o tamanho do risco e tomar as atitudes corretas.

Não custa relembrar que a questão da sustentabilidade não trata somente da preservação do ar que respiramos, oceanos, árvores e rios, como se isso não fosse motivo suficiente. Trata também da preservação de empresas, marcas e empregos brasileiros, que dependerão cada vez mais da opinião que os consumidores terão sobre eles para que possam, inclusive, atrair o capital dos investidores. Brasileiros e principalmente estrangeiros.

E não se trata somente de recuperar nossa credibilidade externa, coisa que não estamos conseguindo entrando em disputas de narrativa. Existem riscos que vão além disso, como as mudanças climáticas causarem um aumento da temperatura que nos faça perder culturas na zona central do país e na própria Amazônia.

O próprio governo brasileiro, cuja área econômica anunciou muitíssimo bem-vindas privatizações e concessões, deve se lembrar que o capital que espera atrair, na quantidade necessária, virá principalmente de grandes empresas e fundos de investimento. Mesmo que o Brasil seja um grande negócio para eles, e é, eles podem pensar duas vezes se o investimento gerar para eles uma crise de imagem.

 

4 Sugestões para tornar o Brasil um investimento atraente do ponto de vista do ESG

1) Lidar com a crise de imagem através de mensagem e linguagem únicas de setor público, entidades patronais, frente parlamentar agropecuária e Conselho da Amazônia a respeito do assunto;

2) Buscar desenvolver a agricultura regenerativa- meios de usar a terra-agricultura do século XXI;
3) utilização da bio economia na Amazônia;
4) criação da zona industrial verde bio econômica, talvez junto da zona franca de Manaus.

Obviamente, todas essas ações serão inócuas se não forem acompanhadas de uma fiscalização efetiva contra o desmatamento e o garimpo ilegais, que mesmo em pequena escala, podem causar um prejuízo de imagem muito grande. Mas é preciso começar por algum lugar.

Independentemente de qual seja a sua opinião sobre esse tema, não custa relembrar que estudos como esse feito pelo Itaú BBA abordam números. E os números falam mais do que as palavras.



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