combate ao coronavirus

Falta de cooperação internacional prejudica combate ao coronavírus

Fale com Michel Alaby

A crise do coronavirus está causando imensos prejuízos a todas as economias do mundo. Mas, além das perdas humanas e econômicas, o mundo globalizado que conhecíamos pode ser mais uma das vítimas fatais da pandemia. E isso não se deve somente à ação do vírus, mas a uma falta de cooperação internacional que se deve à visão de mundo de líderes populistas, que antecede o Covid-19, e a crise sanitária exacerbou.

A falta de confiança reina em todos os países, e a pandemia parece ter instalado uma espécie  de “lei da selva”. Além das proibições várias de exportações de produtos médicos e alimentares, vemos países tentarem comprar equipamentos médicos e não conseguirem, porque outros cobrem a oferta, desfazendo contratos fechados, ou simplesmente confiscam os equipamentos.

A disputa entre as grandes potências mundiais por influência política e econômica é um processo normal, que existe desde que se constituíram os Estados nacionais. Mas ao longo da história, muitas vezes pôde-se observar rivais históricos deixarem suas desavenças de lado para enfrentarem ameaças em comum, como observamos quando Estados Unidos e Rússia cooperaram para combater a pandemia do vírus Ebola, na África, com excelentes resultados.

Não é o que estamos vendo nesse momento. Além de os sistemas de cooperação internacional que poderiam  facilitar os tratamentos e acelerar a descoberta de uma vacina para a Covid-19,  para que o mundo possa retomar sua normalidade, vemos o combate ao novo coronavírus ser envolvido por governantes populistas em uma narrativa de confronto político, que em nada ajuda a busca do objetivo comum.

Entre essas disputas envolvidas em narrativas, está a entre os Estados Unidos e a China, que mais do que trazer prejuízos circunstanciais para o comércio mundial, coloca em xeque as próprias regras que regeram esse comércio até hoje ,e permitiram a globalização econômica,  na medida que a legitimidade de organizações multilaterais como a OMC – Organização Mundial do Comércio, são colocadas em dúvida.

Os organismos multilaterais não são infalíveis.  A própria OMS – Organização Mundial da Saúde, que tem estado no centro das atenções durante a crise do coronavírus, aceitou uma investigação independente sobre suas ações desde o início da pandemia. Mas quando se abre mão delas, se renuncia também a uma instância com credibilidade e autoridade para arbitrar as disputas comerciais entre países com base em regras aceitas por todos.

Sem esses organismos multilaterais de cooperação internacional,  a resolução de disputas comerciais entre países, que acontecem com frequência, dependerá de negociações entre as duas partes, que na falta de um acordo,  podem simplesmente resultar em sanções e mais protecionismo, algo que já será uma tendência natural do mundo pós-pandemia, depois que a crise dos respiradores mostrou os problemas de a China ser a grande fábrica do mundo.

Made in China 2025 é como o gigante asiático pretende se apresentar ao mundo.

Quem observa a geopolítica do mundo nos últimos 20 anos percebe que desde 2009, quando a Crise do Subprime causou uma grave recessão nos Estados Unidos, a China parece ter assumido o papel de locomotiva econômica do mundo, quando inclusive se tornou o principal destino das exportações brasileiras.

Mas a China há muito trabalha para deixar de ser somente a fábrica de manufaturas baratas para marcas de outros países. O gigante asiático tem uma estratégia definida para se tornar a maior economia e o grande poder político e militar do mundo, rivalizando com os Estados Unidos, que ocupam essa posição desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E parece ter condições para isso.

A estratégia chinesa de rivalizar abertamente com os Estados Unidos ficou evidente em 2015, com o lançamento do Programa Made in China 2025. O programa conta com cerca de 10 pontos principais, visando alavancar o crescimento tecnológico em setores como semicondutores, engenharia de hardwares e softwares, redes de telecomunicações, automóveis e engenharia genética.

O programa se baseia na atratividade do enorme mercado chinês e na legislação do país, que obriga as empresas estrangeiras que se estabelecerem lá a se associarem às empresas chinesas e na estratégia de privilegiar empresas campeãs nacionais, que hoje competem globalmente, como Huawei (equipamentos de telecomunicação), Baidu (inteligência artificial), e Alibaba (e-commerce), entre outras.

Outro ponto a destacar no Made in China 2025 é que o governo chinês se concentrará na qualidade do crescimento e não na quantidade. Ou seja, o objetivo é o desenvolvimento de alta tecnologia e de produtos com grande valor agregado, resultando na criação de marcas chinesas globais, como já está, de fato, acontecendo.

A reação dos Estados Unidos ao Made in  China 2025.

O Presidente americano define o programa chinês como um roubo de tecnologia que ameaça a segurança nacional e a livre concorrência. A pandemia tem sido usada para intensificar a ofensiva retórica e demonizar a China, havendo, inclusive, autoridades americanas afirmando que hackers chineses estão tentando roubar pesquisas médicas para piratear os estudos científicos que buscam obter a vacina contra o Covid-19.

Essa retorica do governo americano explora politicamente um sentimento anti-China de parte da população do país. Há desde projetos no Senado americano de adotar uma legislação impondo sanções às autoridades chinesas por violação de direitos humanos contra as minorias muçulmanas em Xinjiang, a movimentações da Casa Branca para bloquear os investimentos de fundos de pensão americanos em ações de companhias chinesas.

Saindo do campo doméstico, a Casa Branca pretende incentivar as empresas norte-americanas que estão na China a produzirem nos EUA, principalmente equipamentos eletrônicos e da área médica. E não está sozinha na iniciativa. O Japão, outro país que tem um histórico problemático com a China, ofereceu incentivos para as indústrias japonesas instaladas lá retirarem suas instalações do país, diminuindo a alta dependência em alguns setores de atividades.

 

O dragão mostra suas garras.

Pequim já deu sinais de que não pretende apanhar calada. O governo chinês estuda a possibilidade de anular ou renegociar o acordo comercial com os Estados Unidos, em função das críticas norte-americanas à maneira como país asiático lidou com a pandemia, indicando que a chamada mentalidade chinesa de resultados em relação ao Ocidente, a convicção de que precisam compreender e relevar a hostilidade dos EUA e de outros países tem perdido espaço.

Um exemplo dessa nova política nas relações internacionais aconteceu com a Austrália, outro país cujo governo tem criticado o gigante asiático com frequência. A China desabilitou quatro frigoríficos australianos como fornecedores de carnes, além de proibir à importação de cevada do país. E se engana quem pensa que Pequim quis apenas passar um recado.

A partir de junho de 2020, a China exigirá das operadoras de infraestrutura pública, como empresas de telecomunicações e transporte, que submetam ao governo uma avaliação de segurança de seus fornecedores ao contratar servidores e outros equipamentos de tecnologia da informação (TI). Essa exigência visa evitar interrupções no fornecimento de equipamentos como resultado de eventuais acontecimentos políticos e diplomáticos. Como resultado, companhias estrangeiras poderão ficar de fora dos processos de compras governamentais.

EUA x China, qual deve ser a política governamental e empresarial brasileira

O aumento do protecionismo e da rivalidade China x EUA é uma disputa por poder e influência entre a maior potência econômica, militar e científica do mundo e uma potência ascendente, que mostra ter condições para levar essa rivalidade à frente, como nenhum outro país já demonstrou no passado. Ambos os países, além de manterem relações historicamente boas com o Brasil, são os seus dois maiores parceiros comerciais.

Entretanto, para as empresas e o governo brasileiros, há mais a fazer do que simplesmente ficar de fora da briga dos dois gigantes e lamentar o aumento do protecionismo comercial. O Brasil pode aproveitar as mudanças nas cadeias globais de produção trazidas pelo desejo de segurança e se posicionar como um provedor seguro e confiável. E não somente no mercado de alimentos, onde já somos muito competitivos.

Além do agronegócio, existem outros mercados onde o Brasil pode ser muito competitivo e gerar muitos empregos, como o setor de insumos e equipamentos de saúde e até a indústria farmacêutica. Para isso, há necessidade de definir uma nova política industrial, com a formação de cadeias estratégicas e uma política sanitária que privilegie a segurança alimentar.

Os empresários brasileiros não devem, entretanto, acreditar que um mundo menos globalizado levará a uma economia brasileira mais fechada e protegida. Os desafios do novo modelo de globalização, ou antiglobalização, incluirão severas restrições de formação das cadeias globais de produção e de serviços.

As empresas brasileiras devem se internacionalizar, se preparando tanto para a competição externa pelo mercado brasileiro como para disputar com agressividade, e técnicas avançadas de marketing, os mercados dos nossos principais parceiros comerciais.



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