mundo depois do coronavirus

Haverá uma nova ordem econômica mundial após o fim da pandemia de coronavírus ?

Fale com Michel Alaby

Após o fim da pandemia de coronavírus, veremos um gradual retorno à normalidade econômica e social a qual estávamos acostumados? Ou a crise do  Covid-19 será o motor de aceleração de um processo de destruição criativa que resultará na mudança das relações sociais e econômicas não somente entre as pessoas e empresas, mas entre países?

Destruição criativa é um processo descrito pelo economista austríaco Joseph Schumpeter no clássico da literatura econômica “Capitalismo, socialismo e democracia”. Segundo Schumpeter, o capitalismo não é um sistema estático, mas um que está em constante mudança, com evoluções tecnológicas criando formas mais eficientes de produção ou até novos produtos.

Esse processo é chamado de destruição criativa, porque ele provoca que a antiga forma de produção ou o produto que ficou obsoleto caia em desuso até ser extinto e substituído pelo novo. Um exemplo seria como os computadores substituíram as máquinas de escrever ou a luz elétrica substituiu os lampiões a gás.

Esse conceito é válido para tentar entender as mudanças que vão acontecer no mundo porque a pandemia de coronavírus é o tipo de situação extrema que obriga pessoas, empresas e governos a abraçarem rapidamente mudanças que levariam muito mais tempo para acontecer de forma natural ou que tenderiam a ser postergadas por razões políticas, econômicas ou culturais.

Conhecer esse conceito não nos permite prever o futuro, obviamente. Essa continua sendo uma arte tão ingrata quanto sempre foi. Mas nos chama a atenção para os setores e indústrias que poderão ser afetados de forma mais profunda e rápida. Vamos citar alguns deles.

Petróleo

A indústria petrolífera passa por uma crise inédita em sua história. Desde que o automóvel foi inventado, no fim do século XIX, o consumo de petróleo só aumentou, com o preço do barril de petróleo se mantendo em um valor interessante para os países produtores e as companhias petrolíferas. Mas, desde que a crise do coronavírus se instalou, isso mudou.

Para conter a pandemia, vários países tomaram medidas de isolamento social, quarentena e até lockdown, restringindo a circulação de pessoas e veículos nas cidades, entre elas, e até entre países, cancelando voos comerciais. O consumo desse combustível fóssil e seus derivados caiu a níveis nunca vistos, fazendo com que os preços despencassem.

Em um primeiro momento, quem podia se estocou ao máximo. Mas a oferta ficou tão superior à demanda que os contratos de petróleo em mercado futuro, que davam o direito a comprar petróleo a um preço pré-acordado se tornaram negativos. Ou seja, se o produtor quisesse que o comprador ficasse com a mercadoria, teria de pagar a ele.

Na prática, o comércio parou e os preços estão muito baixos.

A Industria do petróleo após o fim da pandemia

É razoável supor que os países produtores de petróleo farão acordos para diminuir a produção e tentar fazer os preços subirem. O que não se sabe é o quanto isso vai funcionar, porque simplesmente não há um histórico de situação parecida em que se basear. Mas é o único instrumento de que dispõem para isso.

Também existe a dúvida de, com a atividade econômica retornando paulatinamente, sem uma indicação mais concreta de quando retomará o ritmo de antes da crise, e com os grandes consumidores super estocados, quanto tempo o petróleo levará para retomar um valor de mercado interessante para todos os países produtores.

Quanto mais dependentes do petróleo forem as economias dos países, mais afetados pela queda do preço eles serão. Os países do Golfo Arábico podem apelar para os seus fundos soberanos para manter a segurança alimentar e a estabilidade social. Mas, países que não têm esse colchão financeiro tendem a sofrer ainda mais com a crise. Os resultados são imprevisíveis.

Energia limpa

O cenário pode mudar também para as indústrias de energias renováveis, como a eólica, hidrelétrica e solar, que são influenciadas pelo que acontece na  indústria do petróleo, porque seriam suas pretensas substitutas em uma nova matriz de energia limpa, de baixo impacto ambiental.

Todas essas formas de geração de energia estão ainda em um estágio de desenvolvimento tecnológico e recebendo investimentos, inclusive na forma de subsídios. A viabilidade desses investimentos pode ser questionada se  preço do petróleo se mantiver atrativo por muito tempo.

Por outro lado, a quarentena ocasionou enorme diminuição das emissões de poluentes, como pode ser observado pelos habitantes das grandes cidades nas cores do pôr do sol. Essa diminuição oferece aos cientistas a oportunidade única de coletar dados sobre seus efeitos em todos os fatores apontados como responsáveis pelas mudanças climáticas.

Dependendo do que essas pesquisas apresentarem, pode-se ter argumentos ainda mais contundentes em favor do investimento na geração de energia de baixo impacto ambiental.

 

Relações de trabalho

Os hábitos de trabalho e as relações entre trabalhadores e empresas já estavam em um processo de mudança, trazidos pelas possibilidades da tecnologia e a busca por mais produtividade. Mas a adoção do sistema de trabalho home office esbarrava em barreiras culturais, tanto por parte das empresas como dos próprios colaboradores.

Muitos gestores rejeitavam a ideia por acharem necessário estar no mesmo local físico para orientar e liderar uma equipe. Da mesma maneira, muitos colaboradores não apreciavam o home office pela dificuldade de serem produtivos trabalhando em suas residências ou até temendo por sua qualidade de vida, pois não haveria mais limite entre horário de trabalho e de descanso.

Mas com a crise do coronavírus e a quarentena, não houve opção além do home office para quem precisava se manter trabalhando e produzindo. Empresas e colaboradores foram obrigados a passar pela experiência, e isso poderá acelerar muito a migração para novas formas de relação de trabalho.

Globalização econômica

Até o último dia antes da pandemia de coronavírus, a globalização havia alcançado um estágio em que a China se colocava como a grande fábrica do mundo, com custos de produção e de logística imbatíveis para competidores em outros lugares do mundo.

As fragilidades desse sistema de organização da produção foram expostas pela falta de respiradores, equipamento hospitalar imprescindível para o tratamento de doentes graves de covid-19.

Por ser um equipamento de baixo custo de produção e, em situações normais, baixo preço de venda, além de não ter nenhum tipo de complexidade tecnológica, para os padrões dessa indústria, a maioria dos fabricantes optava por produzir na China por uma vantagem econômica. E até a crise começar, não havia razão para fazer diferente.

Quando esse equipamento se tornou uma arma estratégica para combater o coronavírus, mesmo os países que tinham o dinheiro necessário para adquirir o item, não o conseguiam. Não porque as empresas chinesas não quisessem vender, mas porque a China foi o primeiro país a ser afetado e a demanda explodiu acima da capacidade de produção e entrega imediata.

Independentemente da conjunção de problemas que causou a escassez de respiradores, e da probabilidade de uma situação como essa se repetir tão cedo, a globalização econômica, como a conhecíamos até então, foi colocada em xeque.

 

 

Um mundo menos globalizado e mais protecionista?

A crise do coronavírus fez os cidadãos de países ricos e desenvolvidos se sentirem vulneráveis e atemorizados. E seus governos, impotentes para resolver o problema. Por isso, muitos países procurarão implementar novas políticas industriais, estimulando a produção interna, especialmente em setores estratégicos.

Mas, entre a intenção de criar um sistema de produção que evite que um problema como esse com os respiradores se repita no futuro, e a elaboração e implementação de planos viáveis, há antes perguntas a serem respondidas.

A primeira delas é como estabelecer um critério claro para definir o que será considerado setor estratégico. Hoje, as fábricas de respiradores sem dúvida são. Mas, após o fim da pandemia, ou o provável surgimento de uma vacina eficiente contra o Covid-19, é provável que esse equipamento volte a ser um item de pouco valor, uma commodity do setor médico.

O segundo ponto a ser levantado é, uma vez definidos que setores serão estratégicos, construir novas fábricas, ampliar ou modernizar as já existentes em cada país exige investimento. Eles farão parte de um Novo Plano Marshall, para recuperar a economia mundial? Ou seriam recursos de outra fonte? Em resumo, quem financiaria esse investimento?

Finalmente, é preciso observar que, independentemente do que a crise do coronavírus nos mostrou sobre os perigos de permitir que a produção de certos equipamentos seja concentrada em um único país, existe o perigo do isolamento econômico. É um conceito aceito como verdadeiro que economias fechadas tendem à estagnação no médio e longo prazo.

O Brasil, por exemplo, já foi um país muito mais fechado, com um mercado protegido, onde a importação de diversos produtos, de automóveis a computadores, era dificultada ou proibida. E ninguém afirmaria que essa proteção criou indústrias modernas e competitivas .Ou que os consumidores brasileiros foram beneficiados com produtos melhores ou mais baratos.

Independentemente do quanto essa tendência a um mundo e uma economia menos globalizadas se concretize, é importante lembrar que certas indústrias não conseguirão escapar do seu “determinismo natural”, pois as vantagens competitivas construídas por cada país ao longo de décadas não desaparecerão da noite para o dia.

Isso significa que, por exemplo, a Índia, continuará sendo uma referência mundial – e principal fornecedor –  em engenharia de softwares, porque possui uma imensa mão de obra qualificada nessa indústria. Assim como o Brasil continuará sendo o maior fornecedor mundial de alimentos, porque possuímos terras aráveis, clima favorável e pessoas qualificadas no agronegócio.

A China no mundo pós coronavírus.

Um mundo mais protecionista, se a tendência se confirmar, dificilmente será um mundo com “menos China”. O gigante asiático será um dos grandes investidores em empresas de vários países, inclusive no Brasil. E continuará sendo uma grande compradora de nosso agronegócio, pois está muito longe da autossuficiência na produção de alimentos.

Então, mesmo que as regras do comércio internacional mudem em função da experiência com os respiradores na crise do coronavírus, e vários países estimulem suas indústrias nacionais, a inserção chinesa na economia mundial, e sua posição de protagonista no comércio e na política internacional não mudarão.

O papel do Estado na economia

De todas as destruições criativas que a crise do coronavírus trará, talvez a maior seja no papel do Estado na economia e na própria vida de pessoas e empresas.

A Covid-19 colocou os governos do mundo inteiro diante do desafio de ter que socorrer financeiramente empresas e famílias para evitar um caos econômico e social que pode causar muito mais estragos que a própria pandemia em si.

O Brasil passava por um processo de diminuir o tamanho do Estado e o seu custo para a sociedade. A crise coloca o país diante do seguinte dilema: diminuir o tamanho do Estado ou realmente reformá-lo e torná-lo eficiente, para atender ao desafio que vai se apresentar nos próximos meses e anos? E quanto desse discurso pode realmente ser tornado realidade?

O Estado no Brasil tem um histórico de ineficiência e corrupção que coloca um ponto de desconfiança na sua capacidade de ser o agente que fará os investimentos que o país precisa, como em saúde e infraestrutura, falhas que a crise do coronavírus escancarou. Assim como nos Estados Unidos, colocou em questão a falta de um sistema de saúde pública gratuito.

Mas o Estado é a única arma que temos para evitar que a crise traga o empobrecimento econômico e o caos social. Equipá-lo e fiscalizá-lo com todas as ferramentas que a tecnologia moderna oferece é a maneira que temos para fazê-lo funcionar para as pessoas que precisarão dele, mais do que nunca.



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