Soja não desmata Amazônia

A Soja brasileira não desmata a Amazônia

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O Presidente da França, Emanuel Macron, usando a sua costumeira verborragia, disse que “comprar soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia.”

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja, e o desmatamento da Amazônia é uma questão preocupante, mas os dois fato simplesmente não se relacionam, Não há ligação entre a lavoura de soja e o desmatamento do bioma amazônico desde a moratória do soja, em 2008, um pacto ambiental cumprido pelo agronegócio e fiscalizado de perto por ONGs e autoridades.

Porque Macron atacou a soja brasileira

As razões para a declaração do Presidente Macron, conforme já havíamos previsto neste artigo, de junho de 2020, infelizmente têm pouco a ver com a preservação da floresta. Estão, sim, relacionadas aos interesses dos agricultores franceses. E nos interesses de Macron nos votos deles nas eleições vindouras.

A soja na Europa

A superfície destinada ao plantio de soja na Europa dobrou mais de 1 milhão de hectares, desde a política agrícola comum (PAC) em 2013 e a produção atingiu o recorde de 2,8 milhões de toneladas em 2017/2018, sendo os principais produtores são Itália, Romênia e… França. Mas, apesar do crescimento de sua produção, a soja francesa é 25% mais cara que a brasileira e a norte-americana, segundo o próprio Ministério da Agricultura da França.

A soja francesa só consegue manter sua competitividade com pesados subsídios, razão de disputas históricas da França com grandes produtores agrícolas mundiais, como o Brasil. E que Macron ainda incrementou com 100 milhões de euros , vindos dos fundos recebidos da comissão europeia para a retomada da economia pós-pandemia.

Fake news se tornaram ferramentas de comunicação política.

Que as fake news, utilizando o jargão mais atual para narrativas e desinformação, tentando relacionar o agronegócio brasileiro e a Amazônia, aparecessem em algum momento, dados os interesses econômicos e políticos em jogo, está longe de ser inesperado.

Mas não deixa de ser um sinal desalentador de nossos tempos que elas saiam da boca de Chefes de Estado, que mesmo que tenham um histórico de rivalidades e polêmicas entre si, certamente têm fontes de informação muito melhores que sites obscuros da internet, redes sociais e grupos de WhatsApp.

Como lidar com as fake news

Macron mereceu as críticas que recebeu na imprensa brasileira pela declaração. Mas, sejamos justos:  ele não é o único político, ocupando um cargo de Chefe de Estado, ou não, a utilizar esse tipo de expediente. Esse é um fenômeno mundial, típico da era das redes sociais, e que infelizmente, não dá sinais de que irá refluir.

E a soja brasileira, por sua vez, não é o primeiro produto a ser envolvido em uma polêmica injustificada, em um contexto de disputa e polarização política. Nem o único que corre esse risco. Lidar com isso será um desafio cada vez maior para os profissionais que cuidam da imagem das marcas e até dos países.

O governo brasileiro, as entidades ligadas ao agronegócio, e todas as partes interessadas no Brasil, devem ter em mente que tentar lidar com esse problema da mesma maneira que foi feito em um passado recente, com farpas, declarações mais agressivas e uma farta veiculação de “memes” e piadas, algumas até de gosto duvidoso, serão totalmente ineficazes para lidar com a questão.

Excesso de agressividade, além de gerar em alguns grupos uma certa simpatia contra quem levou o golpe mais duro, prejudicando a imagem do brasil, não informa a ninguém, seja no Brasil, seja na França, que a produção de soja brasileira não ameaça a Amazônia.

Propaganda e diplomacia são a alma do negócio

As declarações de Chefes de Estado de outros países sobre o Brasil devem ser tratadas nos canais diplomáticos, que são os apropriados para isso. E há entre os diplomatas brasileiros, profissionais à altura da tarefa.

Mas, mais importante do que isso é entender que a declaração de Macron, apesar de alvejar o Brasil e seu agronegócio, com o objetivo de justificar uma medida protecionista que agrada a um setor da economia francesa, tinha um endereço muito mais amplo: O grande público, dentro da França e até fora dela, para quem a preservação do meio-ambiente, e da Amazônia em especial, é um assunto muito importante.

É com esse público, em muitos lugares do mundo, especialmente Europa e Estados Unidos,  que o agronegócio brasileiro precisa se comunicar, mostrando todos os esforços feitos para preservar o meio-ambiente, criando uma imagem positiva não somente da nossa agricultura e pecuária, como do nosso país.

Esse seria um trabalho de branding, de construção e reposicionamento de marca. Não mudará a atitude de nossos concorrentes em outros países, nem o lobby que fazem no contexto da política doméstica de cada um deles.

Mas quando precisarem justificar politicamente protecionismo e subsídios, não será às custas da imagem do Brasil ou do nosso agronegócio. E quem ganhará com isso serão todos os produtos e marcas brasileiras que forem disputar mercados internacionais.

 



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