Novo Plano Marshall

Um novo Plano Marshall pode salvar a economia mundial do Coronavírus

Fale com Michel Alaby

A paralisação na atividade econômica causada pela crise do coronavirus está tendo efeitos comparáveis aos de uma guerra. Por essa razão, muitos estão chamando o plano de resgate econômico mundial necessário para impedir uma tragédia humana de proporções tão grandes quanto as causadas pela pandemia em si de novo Plano Marshall.

Por isso, vale a pena conhecer o que foi o Plano Marshall original, quem o implementou e a quem ele beneficiou. E, principalmente, qual a possibilidade real de o mundo repetir a dose de um remédio que já deu certo no passado. Fazendo uma comparação com o tratamento de uma enfermidade, algo tão no espírito dos dias atuais, quem são os médicos e os doentes.

O que foi o Plano Marshall

O Plano Marshall foi um plano de recuperação econômica elaborado pelo então secretário de Estado norte-americano, general George C. Marshall, para reconstruir os  países que foram praticamente destruídos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), independentemente de que lado eles estivessem durante o conflito, do Eixo ou dos Aliados.

As razões da elaboração desse plano foi a lúcida percepção de que o que levou ao início da Segunda Guerra Mundial foram questões mal resolvidas no conflito de 1914-1918, como a atitude revanchista dos vencedores em relação aos vencidos, especialmente dos franceses em relação aos alemães.

A capitulação da Alemanha, oficializada no Tratado de Versalhes, impôs ao país uma série de restrições econômicas e o pagamento de pesadas indenizações de guerra, que levaram ao empobrecimento do povo alemão e ao surgimento de um  sentimento de injustiça. Esse foi o contexto explorado por Hitler para chegar ao poder, acabar com a democracia, começar a guerra e cometer todos os crimes que cometeu.

Mas, ao final da Segunda Guerra Mundial, o surgimento de novas versões do nazismo e do fascismo não eram a maior ameaça. O que os líderes das democracias ocidentais, como o britânico Churchill e o norte-americano Truman, que sucedeu a Franklin D. Roosevelt, falecido, perceberam era que a maior ameaça viria de um dos vencedores do conflito e aliado momentâneo: a União Soviética, uma ditadura socialista governada pelo brutal Josef Stalin.

Stalin contava com um grande ativo político nos EUA e Europa: Simpatia popular! Para justificar a aliança com os soviéticos perante sua opinião pública, os americanos suavizaram a imagem do ditador , que  na imprensa virou o “Tio Joe”, bravo e simpático líder por quem o mundo inteiro torceu fervorosamente na batalha de Stalingrado. E, tendo dominado toda a Europa Oriental, estava pronto para avançar sobre os países da parte ocidental, se a oportunidade aparecesse.

Para combater a influência de Stalin e impedir que a Europa Ocidental fosse tragada pela expansão do socialismo, o presidente dos EUA, Harry S. Truman, determinou que o secretário de estado, general George C. Marshall, elaborasse o plano de recuperação econômica dos países do Oeste Europeu, que recebeu o seu nome. O Plano Marshall consistia no investimento ao longo de 4 anos de US$ 13 bilhões, que em valores de 2019, seriam US$105 bilhões

O Plano Marshall contemplou 17 países: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Grécia, Irlanda, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e a então Alemanha Ocidental. Em troca desse socorro financeiro, esses países deveriam diminuir barreiras alfandegárias, afrouxar as regulações produtivas e adotar procedimentos comerciais mais modernos.

Nota: Embora o Japão também tenha recebido uma ajuda financeira de 14 bilhões de dólares na época, essa ajuda não fez parte do Plano Marshall.

As Consequências do Plano Marshall

As consequências do Plano Marshall foram não só a recuperação, como o maior período ininterrupto de crescimento que as economias da Europa Ocidental já tiveram. Além disso, foi o início da integração que levou à criação da União Europeia que conhecemos hoje.  Os Estados Unidos, por sua vez, consolidaram sua posição de hegemonia econômica no mundo, após a Segunda Guerra.

O que seria o Novo Plano Marshall

Um Novo Plano Marshall seria baseado na premissa, corrente, de que a crise do coronavirus é realmente uma guerra, e após ela terminar, será necessário um grande investimento por parte dos governos dos países mais ricos do mundo para recuperar não somente duas economias, mas a de países mais pobres.

Nesse sentido, os Estados Unidos já anunciaram um pacote de US$ 2,2 trilhões, o equivalente a mais de dez porcento do seu PIB, de 19,39 trilhões de dólares, e o G20, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo, dos quais o Brasil faz parte, anunciou uma injeção de 4,8 trilhões de dólares na economia mundial para evitar uma recessão de proporções catastróficas.

 

O novo Plano Marshall vai funcionar no mundo pós coronavírus?

Essa é a pergunta que todos se fazem. E é muito difícil de responder sem fazer antes outras perguntas. A única certeza é que existem grandes diferenças entre o mundo de 1947 e o de 2020.

A primeira diferença é saber se temos líderes à altura do desafio. Não foram poucos os países ricos democráticos em que as lideranças se mostraram vacilantes em entender a real ameaça da pandemia. Serão capazes de entender que guerra contra o coronavirus será seguida de uma emergência econômica mundial, que exigirá delas uma atuação decisiva? Nada indica que tenhamos hoje pessoas com a clareza de visão de Churchill, Roosevelt ou Truman.

A segunda diferença é saber a real condição dos países mais ricos de fazer esse resgate. Em 1947, Europa e Japão estavam arrasados, mas os Estados Unidos estavam praticamente intactos, com uma economia em pleno emprego. Hoje, todas as maiores economias foram afetadas pelo coronavirus praticamente ao mesmo tempo.

A terceira diferença se refere ao contexto. Ao fim da Segunda Guerra Mundial estava claro para os EUA que não ajudar a Europa e o Japão significava entregar esses países ao domínio da União Soviética. Hoje,  não existe mais um grande inimigo a ser enfrentado. Embora os EUA ainda sejam a grande potência mundial, e estejam sendo desafiados nessa posição pela China, até o momento a rivalidade entre esses dois países não chegou a nada parecido com o que foi a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Embora a China seja um país oficialmente socialista, há muito ela não tem interesse em exportar o seu sistema político ou inspirar revoluções em outros países do mundo, como a antiga União Soviética fazia. A China é hoje a grande fábrica do mundo, e a relação dela com os EUA, e com as demais economias do mundo é a de importar e exportar mercadorias, não ideologias.

Na verdade, o que o mundo espera é que sejam a China, o FMI e o Banco Mundial os protagonistas de um Novo Plano Marshall. Não somente porque são os únicos que podem fazê-lo, mas também porque esse é o tipo de missão para que organizações como essas existem. E porque a China teria interesse em projetar seu soft power como potência ascendente, coisa que já está fazendo com a chamada “diplomacia da máscara”, as doações de respiradores, EPIs e o envio de profissionais de saúde aos países mais afetados pela pandemia.

Se esse cenário se confirmar, resta saber qual será a atuação dos autores do Plano Marshall original. Ou seja, como os Estados Unidos reagirão a um novo e reforçado protagonismo chinês no mundo. Uma questão que, uma vez vencida a pandemia nos EUA, poderá ser de grande peso nas eleições presidenciais americanas, que ocorrerão em 2020.

O Comércio internacional no mundo pós-pandemia.

Outra questão que precisa ser observada é como será o comércio internacional nesse mundo pós pandemia do coronavirus. Ter a China como grande fábrica do mundo levantou algumas questões. Muitos países, inclusive o Brasil, precisaram de equipamentos para combater a pandemia, desde máscaras de proteção n95 até respiradores pulmonares, para tratar os doentes mais graves.

Como a maior fabricante desses itens é justamente a China, que foi o primeiro país a ser afetado pela Pandemia, hoje são produtos com altíssima demanda em falta no mundo inteiro. Com gravíssimas consequências. Essa dependência de um único país como principal, ou único, fabricante de produtos que o mundo precisa, e que se tornaram realmente estratégicos, levantou em todo o mundo questionamentos sobre o atual estágio de globalização, que podem levar a mais protecionismo, o que coloca um ponto de interrogação no papel que a China poderá realmente exercer.

A única certeza que temos é que com ou sem um novo Plano Marshall, o mundo não será o mesmo após a pandemia do coronavírus.



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