variante omicron

A variante ômicron não é uma surpresa, mas um alerta que precisa ser ouvido



A notícia do surgimento da variante ômicron da Covid-19, na África do Sul, colocou o mundo em alerta, derrubando previsões de recuperação econômica e consequentemente as bolsas de valores em todo o mundo. Embora as primeiras notícias a respeito, dadas por órgãos de imprensa sérios, afirmem que a ômicron é mais contagiosa, mas menos perigosa, ao menos aparentemente, convém termos a devida cautela antes de fazer qualquer afirmação.

A menor letalidade da ômicron, se confirmada, é uma excelente notícia, mas não diminuiu seu grande impacto psicológico. Tanto os países ricos como aqueles em desenvolvimento, como o Brasil, nesse momento já viviam uma sensação de pós-pandemia.

Não que alguém achasse que todos os problemas haviam terminado, mas o mindset global estava voltado para resolver o caos logístico, causado por quase dois anos de paralisação de atividades, controlar a inflação causada pela escassez de diversos produtos, e em alguns casos, até em reorganizar a globalização econômica, evitando os perigos da concentração da produção industrial em um único lugar, como ocorreu na crise dos respiradores.

Porque a ômicron não é uma surpresa

Conforme havíamos previsto nesse artigo, de março de 2021, muitos países do mundo, especialmente das regiões mais pobres, como a África, haviam recebido pouquíssimas doses de imunizantes, permitindo que o coronavirus se alastrasse, e sofresse mutações, porque essa á natureza dos vírus, livremente.

Então, é um erro chamar o surgimento de uma nova variante no continente africano de “surpresa desagradável”. Desagradável, com certeza, para ser eufemístico, Mas jamais uma surpresa.

Não seremos levianos a ponto de falar que o surgimento de uma nova variante poderia ter sido evitado, mas é um fato que muito pouco foi feito para levar imunizantes em quantidade suficiente para o continente africano. E podemos nos considerar com sorte de estarmos recebendo uma espécie de segunda chance.

Os mecanismos naturais que levam os seres vivos, inclusive os vírus, a sofrerem mutações são aleatórios, absolutamente imprevisíveis. Se no caso da ômicron o resultado ao que tudo indica, é de uma variante mais contagiosa, mas menos perigosa, nada impede que uma próxima mutação tenha outras características. Inclusive a de ser, o que seria o pior dos cenários, mais contagiosa, mais perigosa, e as vacinas que temos até o momento não terem efeito sobre ela.

A questão do continente africano e outras regiões menos desenvolvidas

A quebra de patentes para aumentar a quantidade de imunizantes disponíveis, conforme foi proposto pela OMC,  é uma das opções para resolver o problema o mais rápido possível, e tem seus pontos positivos e negativos. Existem outras que podem ser aplicadas, sem dúvida, inclusive porque o continente africano não é um bloco homogêneo, como uma visão estereotipada que temos de fora dele pode dar a entender.

A África tem um total de 54 países, diferentes entre si cultural, étnica e linguisticamente, do Egito à Nigéria, passando por Camarões e pela própria África do Sul, alguns mais estáveis, outro mais instáveis politicamente, e em diferentes graus de desenvolvimento econômico. Isso significa que a viabilização de uma imunização em larga escala em cada um desses países pode ter estratégias diferentes

Mas, independentemente de qual seja estratégia, o surgimento da variante ômicron é um aviso de que as questões sanitárias na África não poderão ser deixadas em segundo plano, e muito menos se restringirem a demonstrações públicas de boas intenções por parte de celebridades ou chefes de Estado.

Se o mundo permitir que o vírus continue a circular livremente pela África, será uma questão de tempo o surgimento de novas variantes, que podem ser mais contagiosas, mais letais, ou ambos. E como já está acontecendo com a ômicron, se espalharem pelo mundo, reiniciando a tragédia humana e econômica da Covid-19.

Então, mais do que uma questão de cunho humanitário, promover a imunização em massa da população dos 54 países da África é uma questão de interesse pragmático de todo o mundo.

A variante ômicron e os riscos de não se vacinar

O surgimento da variante ômicron é uma causa maior de preocupação no mundo inteiro. Não somente porque ainda não se sabe se as vacinas disponíveis no mercado são eficazes contra ela, mas porque existe um considerável contingente de pessoas, inclusive no Brasil, que embora minoritário, é bastante ativo nas redes sociais e meios de comunicação, e que por vontade própria se recusa a se vacinar, alegando os mais diversos motivos.

Com mais de 4 bilhões de pessoas imunizadas no mundo inteiro e o número de  contaminações e óbitos despencando nos países onde a vacinação em massa ocorreu, qualquer dúvida a respeito da segurança e eficácia das vacinas, que mesmo a pessoa mais cética e precavida teria o direito de ter, já deveria ter sido dirimida.

Esse contingente de não vacinados não somente atrasa o controle total das cepas do coronavirus que já estavam em circulação, como se torna a porta de entrada e o “caldo de cultura”  onde podem surgir novas variantes, como foi o caso da ômicron, que podem ser muito mais transmissíveis e perigosas.

Não custa lembrar que o coronavirus é conhecido pela ciência desde a década de 1960, e jamais havia se mostrado excepcionalmente perigoso para o ser humano até 2019, quando, até onde se sabe, uma única pessoa contaminada com uma mutação contaminou outras, dando origem à pior pandemia dos últimos 100 anos.

Enquanto houver possibilidade de o vírus se espalhar e sofrer mutações, variantes mais letais que a ômicron poderm surgir e se espalhar, perpetuando ou reiniciando a tragédia humana e econômica da pandemia.

 



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