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Nova classe média chinesa é chave para entender porque o comércio mundial depende da China

Fale com Michel Alaby

Após a pandemia de Covid-19, a relação entre a China e o resto do mundo irá mudar. Tanto em função das vulnerabilidades expostas pela crise dos respiradores, como pelo aumento das tensões geopolíticas entre Pequim e outros governos, que se sentem de alguma maneira ameaçados pelo crescimento chinês, como o Japão, com quem a China tem problemas históricos, e os Estados Unidos, que são abertamente desafiados em sua posição de primeira potência mundial.

O mundo anterior à chegada do coronavírus já observava uma mudança da posição da China de grande fábrica do mundo, a baixos custos, para marcas de outros países, para a de uma potência econômica, militar, política e científica, que não só foi o terceiro país a mandar um ser humano ao espaço com sua própria tecnologia, como hoje tem empresas cujas marcas disputam a preferência dos consumidores e considerável fatia de diversos mercados, em muitos países.

A chegada da pandemia de coronavírus mudou algumas tendências, e acelerou outras. Entre as que mudaram, está a da globalização econômica como a conhecíamos, com uma cadeia de valor mundial, que tinha a China como a sua grande fábrica de bens manufaturados. O mundo deverá se tornar mais protecionista, descentralizando a produção de itens estratégicos, em cadeias de produção regionalizadas, para não depender de um único grande produtor, como ocorreu na crise do Covid-19.

Outras tendências eram uma questão de tempo até que a simples disputa econômica da China com outras economias se tornasse uma questão também política. É o caso dos Estados Unidos, que perceberam no gigante asiático uma potência que realmente tem condições de disputar a liderança econômica do mundo, e do Japão, com quem os chineses têm questões mal resolvidas desde a II Guerra Mundial, e que por isso vê com receio a ascensão chinesa.

Essas duas situações convergiram para uma série de inciativas para tentar diminuir a dependência econômica do mundo em relação à China.

A economia chinesa atual

Independentemente de quais sejam as iniciativas, e de como se enxergava a China até pouco tempo atrás,  é preciso entender que não haverá uma volta ao status quo anterior, e que o crescimento do gigante asiático é uma realidade que se impõe, com o qual interagir economicamente não é uma questão de opção, como mostram os números do crescimento chinês, a mudança no perfil de sua economia, do seu mercado interno e principalmente no perfil dos consumidores chineses.

A participação Chinesa no comércio mundial

No século XXI, a China se tornou verdadeiramente a protagonista econômica do mundo. Em 2000, a participação da China no comércio mundial de bens  era de 1,9%. Passadas duas décadas, em 2019, cresceu quase oito vezes, chegando a espetaculares 15%. Em uma análise do fluxo comercial de 186 países, a China é o principal destino das exportações de 35 deles e a maior fonte de importações de 65 países, respectivamente.

A ascensão das marcas chinesas

Esse crescimento não significa somente o volume de bens que a China importa e exporta, mas o  aumento do valor agregado de produtos chineses, o que pode indicar um aumento da percepção de valor dos consumidores do mundo sobre as marcas chinesas, indicando que muito em breve o made in China deverá ter uma mudança de posição na mente dos consumidores, que se já não enxergam as marcas chinesas como falsificação, em breve deixarão de vê-las como segunda linha.

Embora a China ainda dependa da importação de semicondutores, dispositivos óticos, e de propriedade intelectual (PI) estrangeira, fez seu dever de casa para ter produtos competitivos. Saiu de um investimento anual em  pesquisa e desenvolvimento e US$. 9 bilhões anuais, 7,43% do PIB nominal, o que já era impressionante, para US$.321 bilhões em 2019 (22,7% do Produto Interno Bruto nominal). É o segundo maior investimento em P&D do mundo, aproximando-se dos EUA.

Há previsão de a China investir US$. 1,4 trilhão até 2025, sendo as empresas do país ainda mais presentes em rankings como o Global Fortune -500, que lista as 500 maiores empresas do mundo, que trouxe em 2019 mais de 120 empresas da China e de Hong Kong.

A participação da China nos mercados mundiais.

 

Além de ter ganho qualidade, a China é a maior produtora de praticamente tudo, respondendo por uma fatia muito considerável da produção industrial global, entre 40% e 60% do total,  em várias categorias de produtos importantes, de bens de consumo a bens de capital, como:

Automóveis

Painéis solares,

trens de alta velocidade,

sistemas de pagamentos digitais,

veículos elétricos,

equipamentos médicos

máquinas agrícolas,

smartfones,

serviços de nuvem-cloud

construção de robôs

Navios

O Mercado interno Chinês é cada vez mais de Classe média

60% da população da China já vive nas cidades, e os consumidores chineses estão enriquecendo gradualmente. Até 2030, 58% dos lares chineses estarão na categoria de afluentes de massa, com famílias com renda mensal média de aproximadamente US$.2.600,00, sendo que, apesar de sua posição no comércio internacional, o consumo interno chinês contribui com mais de 75% do impressionante PIB da China.

 

A China também é um país conectado. Cerca de 800 milhões de chineses acessam a internet regularmente, mas o mais impressionante é que 40% da população urbana tem renda anual entre US$.10.600,00 a US$13.000,00, o que  significa que a classe média chinesa é de 400 milhões de pessoas, quase duas vezes o total da população do Brasil. E há previsões  de que até 2025, 75% da população da China se converta em classe média

A dependência da China.

Os Estados Unidos têm adotado uma estratégia ambígua em relação à China, assinando um acordo comercial, mas tendo uma retórica agressiva, inclusive contra empresas chinesas, o que pode ser explicado em parte pelo período eleitoral americano, no qual a China é questão relevante para uma parte do eleitorado norte-americano. O Japão, por sua vez, propôs um pacote de USD 2 Bilhões em incentivos para que empresas japonesas retirem suas fábricas da China.

Tanto a estratégia de um confronto mais aberto, adotada por americanos e japoneses, como a da substituição parcial da globalização econômica pela regionalização continental, da qual inclusive o Brasil pode participar,  fazem sentido até certo ponto. Afinal, elas diminuiriam a dependência de um único país, que a experiência recente com as máscaras e respiradores mostrou que tem os seus perigos. E traria de volta a outros fábricas e empregos.

O problema da estratégia é que ela enxerga a China somente como concorrente, e a desconsidera como mercado. Será que faria sentido para, por exemplo, as montadoras e fábricas de autopeças japonesas  se retirarem da China e serem menos competitivas em um mercado que em 2017 emplacou 28 milhões de autmóveis novos e, como mostraram os números, só tende a crescer? E que será o maior comprador de praticamente tudo, com sua enorme classe média, cada vez mais afluente?

A mesma pergunta pode ser feita para qualquer empresa, em qualquer setor, de qualquer país do mundo.

As relações Brasil-China.

Nessa disputa entre gigantes econômicos, alguns questionam de que lado o Brasil deve ficar. Se existe uma resposta certa ela é o lado do Brasil. China e Estados Unidos são respectivamente nosso primeiro e segundo maiores parceiros comerciais, e o próprio Japão também é um parceiro extremamente relevante. E para as reformas econômicas que o Brasil precisa realizar, que incluirão privatizações, temos de estar abertos às parcerias e investimentos estrangeiros, sejam eles americanos, japoneses, chineses ou árabes.

Em relação ao gigante asiático, especificamente, China e Brasil tem economias complementares, com o Brasil podendo oferecer a segurança alimentar que a China precisa. As exportações brasileiras do agronegócio para a China alcançaram até maio de 2020, o volume de US$.16,51 bilhões, equivalentes à soma das vendas externas do setor para a Europa, América do Norte, América do Sul e Oriente Médio.

A dependência do Brasil, e de muitos outros países, do mercado da China não é uma questão ideológica ou política, como muitas vezes alguns discursos fazem parecer, mas da correta interpretação da realidade econômica. A presente crise traz incertezas, mas também oportunidades, que podem ser os catalizadores para uma reorganização produtiva do Brasil a médio e longo prazos, não somente para fornecermos produtos do agronegócio, mas muitos outros, para o promissor mercado chinês.



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