depois da Guerra Rússia x Ucrânia

Consequências da Guerra Rússia e Ucrânia na política, economia e comércio internacionais



A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. Passado um mês do início do conflito, a situação permanece incerta dos pontos de vista militar, político e, consequentemente, econômico. Um cenário extremamente volátil, que dificulta também fazer quaisquer previsões. Mas já é possível vislumbrar algumas das consequências da guerra na Ucrânia sobre a política, a economia e o comércio internacionais.

Os prognósticos são preocupantes, não somente no sentido do comércio internacional para o curto prazo, mas por colocar à prova situações que o mundo considera como verdades há quase 80 anos.

Invasão da Ucrânia quebrou um paradigma de quase oito décadas

É sempre mais confortável analisar os acontecimentos quando contamos com o benefício do distanciamento cronológico. Mas não é exagero afirmar que a invasão da Ucrânia será considerada um divisor de águas na geopolítica do Século XXI, mudando o rumo das relações internacionais políticas e econômicas, com suas óbvias consequências para o comércio internacional, que é nossa área de especialidade.

O mundo antes da invasão da Ucrânia

É necessária extrema prudência para, ao analisar os fatos, não cairmos na armadilha de associar, ou comparar, situações e personagens políticos da década de 1930 com os atuais. Feita essa ressalva, é impossível não constatar que o que ocorre na Ucrânia atualmente é algo que a Europa não assistia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945.

Durante todo esse tempo, no contexto de Guerra Fria que definiu o mundo pós-Segunda Guerra Mundial, especialmente após a Crise dos Mísseis de Cuba,  em 1962, havia uma espécie de regra, ditada pelo bom-senso, que as superpotências não se confrontariam diretamente, para diminuir o risco de um conflito nuclear que causaria a extinção da raça humana e da vida no planeta Terra.

Essa doutrina, conhecida como MAD – Muttually  Assured Destruction, ou Mútua Destruição Assegurada, foi seguida tanto pelos Estados Unidos como pela Rússia, herdeira do poderio militar da União Soviética, que acabou em 1991, logo após a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Isso não significou, como todos sabem, a paz no mundo durante o período de Guerra Fria. Apenas que os confrontos entre as superpotências se dariam através de guerras por procuração, em outros lugares do mundo. E mesmo nessas, onde houvesse a presença de forças militares de uma delas, a outra estaria quase automaticamente do outro lado, mas apoiando forças locais.

E todos esses conflitos, mesmos os mais midiáticos, e com grande impacto cultural e político, como as Guerras da Coréia, Vietnã, e do Afeganistão nos anos 1980, teriam um caráter iminentemente regional, não significando que as grandes potências entrariam em Guerra Total entre si.

Outro paradigma que a invasão da Ucrânia quebrou, foi o de um país tentar anexar totalmente, ou tomar territórios de outro, através de uma guerra. Esse tipo de ação de governos, que já era questionada na primeira metade do Século XX, era considerada um anacronismo que remete ao que o historiador britânico Eric Hobsbawm chamava de Era dos Impérios.

Os poucos episódios após 1945, como a Guerra das Malvinas, em que a Argentina quis fazer valer pela força sua reivindicação sobre as Ilhas Malvinas, e foi rapidamente derrotada pelo Reino Unido, em 1982,  ou a invasão do Kuwait pelo Iraque, derrotado por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos na primeira Guerra do Golfo, foram aventuras desastradas de governos disfuncionais, que duraram pouco tempo.

A própria invasão do Afeganistão pela então União Soviética, em 1980, terminou com a retirada do Exército Vermelho em 1988, e é considerada um fator que acelerou o desgaste e queda da União Soviética.

O mundo depois da invasão da Ucrânia

A invasão da Ucrânia pela Rússia quebrou esses dois paradigmas. Não somente um país empreende uma guerra para tentar tomar território de outro, como as duas maiores potências militares, e nucleares, do mundo ficaram perigosamente próximas de um conflito direto, com todo o perigo que isso representa.

Consequências econômicas imediatas da invasão da Ucrânia.

A Rússia tem o seu comércio exterior praticamente paralisado pelas pesadas sanções que recebeu, com exceção do comercio com a China. A Ucrânia, por sua vez, sofre isolamento total do comércio marítimo.

Ambos os países são grandes exportadores de commodities como petróleo e trigo, especialmente a Rússia. E ambos os produtos, especialmente o petróleo, tem um efeito potencializador do aumento de outros produtos. E o nervosismo gerado afeta até produtos cuja composição de preços não depende diretamente das commodities exportadas pelos países em guerra, como o cobre, cujo principal produtor e exportador é o Chile.

E é preciso lembrar que antes do conflito começar, o mundo não estava exatamente em uma situação normal, tendo passado por dois anos de uma pandemia que causou uma crise logística que levou à escassez de diversos produtos.

E embora a pandemia tenha perdido relevância no noticiário por causa da guerra, o que é absolutamente compreensível, e até esperado, ela não acabou.  Muitos países do mundo, principalmente os mais pobres, continuam com a maior parte de sua população não vacinada e, por isso, propensos a serem o local do surgimento de novas cepas do coronavirus, como ocorreu com a variante ômicron, vinda da África.

Como a guerra na Ucrânia afetou os preços das commodities e de produtos derivados delas

A situação é tão volátil que as informações correm o risco de ficar desatualizadas muito rapidamente, mas de acordo com o estudo Impacto da Guerra Rússia Ucrânia nas Matérias Primas, publicado pela FIESP-CIESP em março de 2022, o aumento de preços de commodities é generalizado no mundo. Vejamos os números entre 24/02/22 e 18/03/22

 

Petróleo tipo Brent – preço do barril aumentou 11,4%

Nafta – aumentou 11,4%

Minério de Ferro -preço da tonelada chegou a US$150.59 no período.

Carvão – preço chegou a cair após o início do conflito, mas chegou a US$334,50/tonelada, o maior da série iniciada em 2010.

Alumínio – chegou ao maior preço desde 1995, mas já vinha em viés de alta pela demanda da China, entre outros fatores.

Cobre – Chegou ao maior preço desde outubro de 2021.

Neônio – principal insumo para a produção de semicondutores, cujas principais fábricas ficam na Ásia, a Ucrânia é responsável por 50% da produção mundial.

Possíveis soluções para a guerra Rússia x Ucrânia

Passado mais de um mês da invasão da Ucrânia, ainda é difícil tirar qualquer conclusão a respeito do conflito, inclusive porque tudo o que chega até nós pode ser também propaganda, de ambos os lados.

Entretanto, é razoável supor que os estrategistas russos esperavam que a Ucrânia se rendesse sem resistência, como aconteceu na anexação da Criméia, em 2014, que hoje podemos considerar um evento precursor do conflito atual. Ou,  que se houvesse resistência, a guerra seria rápida, e o restante do mundo teria de lidar com o fato consumado.

Nessa situação, a represália viria em sanções econômicas que a Rússia poderia aguentar sem maiores problemas, inclusive porque nesse momento, se encontra alinhada com a China. Então, as sanções seriam algo quase simbólico, para não dizer que a invasão teria ficado por isso mesmo.

Mas não foi isso o que ocorreu. Apelando a trocadilhos infames, faltou aos russos combinar com os ucranianos. A resistência ucraniana está sendo muito mais aguerrida do que se esperava, inclusive porque conta com o apoio e o suprimento de armas e equipamentos dos Estados Unidos e outros países da OTAN,  repetindo de certa maneira  o modus operandi das guerras por procuração travadas durante o período da Guerra Fria.

Mas as semelhanças terminam aí, porque a invasão da Ucrânia, desde o momento em que se iniciou, já extrapolou a condição de um conflito regional, porque os países da Europa Ocidental se sentem diretamente ameaçados. Junto aos clamores da Ucrânia para um envolvimento maior dos países da OTAN, que os Estados Unidos acertadamente tem evitado, é uma situação que podemos classificar como mistura explosiva.

E, do outro lado, por mais aguerrida que seja a resistência ucraniana, o fato é que o Exército Russo é mais poderoso. Quanto mais a guerra durar, maior o risco de que a violência, aumente, na tentativa russa de evitar dois cenários: O de uma retirada em que não possa declarar vitória, porque seria desmoralizada, ou que o conflito evolua para uma ocupação da Ucrânia em que teria de lidar com uma resistência baseada na guerra de guerrilha.

No primeiro caso, haveria uma enorme corrosão do prestígio militar russo no exterior e do prestígio do governo russo frente à sua população. No segundo, além  do grande número de perdas humanas, haveria a questão econômica. A economia russa, já abalada pelas sanções, aguentaria os enormes gastos que teria com a ocupação de um país do tamanho do estado de Minas Gerais e com uma população de 40 milhões de pessoas dispostas a resistir?

Então, a melhor solução possível seria uma saída honrosa para a Rússia, o que, se todas as negociações correrem bem, dificilmente não incluirá alguma perda de território da Ucrânia, cujos negociadores terão de ser habilidosos o suficiente para não perderem toda a saída do país para o Mar Negro, o que poderia inviabilizar o país economicamente.

A questão é: Uma vez selada a paz, se tudo der certo, o que vem depois?

Consequências da invasão à Ucrânia no longo prazo

Mesmo que a paz na Ucrânia fosse selada hoje, nada mais seria como antes. Fantasmas do Século XIX, como países invadindo outros para tomar territórios, ou da Guerra Fria, como o Exército Russo marchando rumo a Europa Ocidental, que até 24 de fevereiro de 2022 pareciam anacronismos, tão improváveis e fora do imaginário que não eram retratados nem mesmo na ficção hollywoodiana, se mostraram perturbadoramente reais.

Nesse virtual cenário pós-guerra da Ucrânia, novos fatores provavelmente estarão colocados.

Isolamento da Rússia em relação ao ocidente e aproximação com a China

Mesmo após um acordo e cessação das hostilidades, será natural que outros países, especialmente do Ocidente, vejam a Rússia com reservas, e demorem a voltar a investir lá. As próprias relações econômicas da Rússia com a Europa Ocidental no setor energético , para o fornecimento de gás natural, tendem a ser revistas, mesmo que essa mudança não seja tão rápida ou fácil de realizar. Países como o Qatar aparecem como substitutos prováveis.

Nessa situação, parece natural que Moscou entenda que poderá atuar com mais desenvoltura no Oriente, o que implicaria em estreitar laços com a China, Índia, um rival regional de Pequim e países do Oriente Médio, como a Arábia Saudita.

A situação interna da Rússia após a guerra da Ucrânia

É preciso tomar muito cuidado para não isolar completamente a Rússia, ou pior, humilhá-la. Mesmo que hoje seja fácil para alguns entrar em um clima de euforia antecipada com um revés militar de Moscou, que, inclusive, ainda não se concretizou, e apontar os erros de avaliação, planejamento e execução da invasão, a Rússia ainda é a Rússia.

É verdade que não conseguir derrotar a Ucrânia facilmente abala o prestígio militar russo. Mas, apelando ao passado como fonte de referência para tentar prever situações futuras, o fracasso da então União Soviética ao tentar tomar a pequena Finlândia em 1939, na chamada Guerra de Inverno, antecedeu o maior triunfo militar da História soviética e também russa: a Batalha de Stalingrado e a derrota do Terceiro Reich na Frente Oriental da II Guerra Mundial.

Potências não deixam de ser potências, e não devem ser menosprezadas. Ou humilhadas.

 

Militarização da Europa Ocidental

Se a expansão da OTAN para a Europa Oriental foi o motivo, ou o pretexto, para a invasão da Ucrânia, uma provável consequência futura pode ser justamente a concretização de um cenário que Moscou desejaria evitar: que os países da Europa Ocidental considerem que devem se preparar para não serem alvos de uma hipotética nova invasão russa.

Mesmo países como a Suécia e a Finlândia, que historicamente assumiram uma posição oficial de neutralidade, parecida com o status que Moscou deseja que a Ucrânia assuma, que inclusive gerou um neologismo, finlandização, que se refere que um país abra mão de políticas de armamento, ou de alianças, que incomodem um vizinho muito poderoso, podem rever essa posição.

Mesmo que elas oficialmente não se filiem à OTAN, explicitando sua posição de temor em relação à Rússia, podem aumentar a cooperação militar com outros países ocidentais e até com os Estados Unidos.

A própria Alemanha reviu uma postura pacifista de mais de 70 anos e não somente autorizou a doação de armamentos para a Ucrânia, como aumentará seus gastos militares para 2% do PIB.

Revitalização da OTAN

A OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, foi criada durante Guerra Fria, para proteger a Europa Ocidental da União Soviética. Após a queda do Muro de Berlim, quando as ameaças à paz pareciam vir da emergência de nacionalismos sufocados desde a Primeira Guerra Mundial, e extremismo inspirado por fanatismo religioso, muitos argumentaram que a aliança não era a melhor forma de lidar com esses problemas, e tinha perdido sua razão de ser.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, mais de 30 anos após o fim da URSS, recuperou a relevância da OTAN, e do papel que os Estados Unidos exercem nela.

Enorme aumento da Influência política dos estados Unidos no mundo.

Esse provavelmente será um dos fatores mais relevantes da geopolítica mundial em um eventual cenário mundial pós-guerra da Ucrânia.

Nos 17 anos entre a queda da União Soviética (1991) e a crise do Subprime (2008), os Estados Unidos não tiveram rivais à altura na geopolítica mundial.  Uma geração inteira cresceu em um cenário de quase hegemonia política norte-americana. Ironicamente, a geração seguinte cresceu vendo a ascensão da China como principal locomotiva econômica do mundo, e os Estados Unidos progressivamente perdendo sua relevância relativa.

Essa perda de relevância parecia mais explícita quando o mundo assistia, além do crescimento da China, uma aparente dificuldade dos Estados Unidos em lidar com a posição de país mais poderoso do mundo, como a série de acontecimentos que podem ser considerados encadeados entre si, que começa com o atentado de 11 de setembro de 2001 e vai até a retirada das tropas americanas do Afeganistão, em 2021.

Muitos países do mundo estavam olhando mais para Pequim, do que para Washington, para decidir que caminho seguir.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, independentemente do teor de um eventual acordo de paz que encerre o conflito, zera essa placar desfavorável aos norte-americanos. Joe Biden tem sido capaz, até o momento, de liderar uma coalizão que não entrou diretamente no conflito, mas armou a Ucrânia o suficiente para que pudesse dificultar enormemente a vida do Exército Russo.

Reino Unido e França, países que também fazem parte da OTAN, também são potências militares. E nucleares. Mas não é o receio da reação de Londres ou Paris que serve como um limite para o que Moscou faz, ou deixa de fazer.

Atraso na implantação de políticas de energia limpa

Da mesma maneira que a Covid-19, as mudanças climáticas não deixaram de ser um problema por causa da guerra na Ucrânia. Apenas ficaram em segundo plano. E a questão voltará ao primeiro plano, mais cedo ou mais tarde.

Mas seria uma imperdoável ingenuidade deixar de apontar que a velocidade com que os países mais ricos do mundo, especialmente os da Europa, abriram mão de fontes de energia tradicionais, mas poluentes, como o carvão, ou consideradas arriscadas, como a nuclear, em prol de energias limpas e renováveis, mesmo que a intenção ao fazer isso fosse das melhores, pode ter contribuído para o início dessa crise.

As fontes de energia limpa mais utilizadas na Europa, como a eólica, não se mostraram ainda confiáveis, capazes de um fornecimento estável. A escassez energética, com a disparada dos preços, fez com que os países da Europa Ocidental corressem em direção à alternativa que pudesse atender a essa demanda com maior rapidez: O gás da Rússia. E a dependência energética, que já era grande, ficou maior.

É absolutamente razoável supor que, sem essa enorme dependência, a Rússia talvez não se sentisse segura o suficiente para seguir o curso de ação que seguiu.

Regionalização Continental será aprofundada

Voltando para o ano de 2020, início da pandemia, a crise sanitária se tornou ainda mais grave porque todos os países do mundo precisavam de respiradores. Por uma infeliz coincidência, as fábricas que eram responsáveis pela maior parte da produção mundial desse equipamento, se concentravam em Wuhan, cidade onde a pandemia de Covid-19 começou e primeiro lugar a fechar por causa do coronavirus.

Esse caso acendeu a luz de alerta do mundo para a questão dos riscos criados pelo estágio de globalização econômica em que o mundo se encontrava, com as vulnerabilidades criadas por um único país concentrar a produção de itens essenciais.

O paralelo com a dependência europeia do gás russo é bastante evidente. Moscou enxergou a dependência energética que a Europa Ocidental tem dela não como uma vantagem econômica, mas como um recurso estratégico no sentido militar da palavra. E se sentiu em posição de fazer algo que, até 24 de fevereiro de 2022, a maioria dos analistas consideraria altamente improvável.

Também é verdade, novamente, que Moscou subestimou a resistência ucraniana e a determinação do Ocidente em ajudar o país atacado, aplicando sanções econômicas tão severas , que estão realmente asfixiando a economia russa. Então, no momento em que estamos escrevendo esse artigo, tudo indica que um acordo com uma saída honrosa para a Rússia encerraria o conflito.

Mas essas são suposições. No momento em que escrevemos esse artigo, a guerra na Ucrânia continua e a situação é volátil, propensa a todo tipo de reviravolta. Até a, dependendo de como o conflito se desenvolver, Moscou decidir que seria uma boa ideia deixar sem gás os países que considera hostis à Rússia nesse momento.

Improvável? Os últimos meses, ou melhor, os últimos anos, redefiniram o nosso conceito do que é improvável. E nos ensinaram, entre outras coisas, que convém seguir a sabedoria ancestral de não colocar todos os ovos em uma única cesta.



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